Ladrão que rouba ladrão…

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No início da década dos 90 nossa escola do Método DeRose estava instalada em uma casa, paralela a avenida Beiramar, em Floripa.

Com dois andares, o piso inferior, menor, oferecia uma ampla secretaria conjugada com uma sala de estar para os alunos e uma cozinha. O andar superior, mais espaçoso, além de uma grande sala de prática, tinha instalado o meu escritório, vestiário, suíte para visitas e um banheiro.

Como o atendimento aos interessados só iniciava às 10 da manhã, quando chegava a secretária e às terças e quintas-feiras, ministrava classes as 8 e 9 horas, sempre deixava a porta da entrada da Unidade, no pavimento inferior, apenas encostada. Os alunos das nove horas conheciam o procedimento, abrindo a porta, subindo para o andar de cima, trocando de roupa e desciam para esperar a aula das 9 da matina. Assim, eles funcionavam como vigias, para evitar a entrada de estranhos, enquanto orientava os alunos da prática das 8 horas.

É importante ressaltar que estávamos no princípio dos anos 90 e Floripa ainda conservava muitos aspectos de uma cidade pequena, com baixos níveis de criminalidade. Portanto, era relativamente seguro deixar a porta da recepção aberta.

Quando o grupo da classe das 9 horas subia para a sala de práticas , despedia-me rapidamente do grupo anterior, chaveava a porta de entrada e podia ministrar minha aula tranqüilamente.

Confesso que algumas vezes, ao supervisionar o tráfego de praticantes entre as aulas, esquecia de chavear a porta.
Um dia, orientava a prática dos alunos do horário das 9 horas quando ouvi um estalido estranho no meu escritório. Deixei os alunos realizando uma modalidade de técnica respiratória e rapidamente me dirigi ao local do barulho. Estranhamente, meu escritório, que guardava, na época, os cheques das mensalidades, e que mantinha sempre com o acesso chaveado estava com a porta aberta. Passou-me um arrepio pela coluna.

– Deixei a porta debaixo aberta! – constatei e entrei correndo no meu local de trabalho para encontrar um jovem moreno, de baixa estatura, mexendo nas gavetas da minha mesa.
– O que estás fazendo aí? – perguntei, com uma voz indignada.

O rapaz deu um pulo para trás, gritou com os olhos arregalados e me fixou por alguns instantes. Em seguida, abaixou a cabeça e o numa posição submissa, aproximou-se de mim dizendo:
– Pode bater em mim, senhor. Pode bater. Eu estou arrependido. Nunca mais faço isso. Pode bater. Pode bater.

Olhei ligeiramente para as gavetas e para as suas mãos e notei que ele não acessara as inferiores, onde conservava as mensalidades. Peguei o gatuno pelo braço e disse-lhe;
– Vamos descer, rapaz. – e fui conduzindo o jovem pelas escadas abaixo.
– Pode me bater, senhor. Pode me bater – continuava ele a exclamar, em uma voz lamuriosa e encurvado.
– O senhor pode ficar com o relógio da minha irmã – e retirou um relógio feminino do bolso, provavelmente roubado, e colocou na minha mão, enquanto caminhávamos para a porta de saída.

Não baterei em você, rapaz. – e abri a porta para ele sair.
– Não vai bater? – perguntou ele, já no vão da abertura de saída.
– Então devolva o relógio da minha irmã, por favor. – e estendeu uma das mãos.
– Não te devolvo nada, amigo – respondi, conduzindo-o para fora da Unidade, trancando o ferrolho e subindo para continuar a ministrar a classe, muito feliz com o meu novo relógio e que presenteie a minha faxineira, fazendo-a muito feliz.


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Um vizinha das arábias

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Meu banheiro gerou um vazamento e a minha vizinha do andar de baixo reclamou que estava pingando no teto do banheiro dela. Seu nome é Eloá: baixinha, morena, gaúcha, com aproximadamente uns 50 anos e mora sozinha.

Tem o hábito de conversar com a vizinha de porta, e quando isso acontece todo o prédio acaba sabendo, tal a animação e o volume com que dialogam. Quando soube do vazamento, imediatamente desci ao seu andar para tranqüilizá-la.

– Olha, Eloá, já contatei um encanador que virá amanhã. É importante que estejas em casa para que ele possa dar uma olhada e tentar fazer um diagnóstico – comentei com ela.
– Não vai dar, Seu Jojó, pois estou viajando hoje a noite, e não terá ninguém para abrir a porta para o encanador amanhã.

– Sem problemas, Eloá. Deixe a chave comigo que eu abro para ele. Fique tranqüila que não roubaremos nada – respondi sorrindo.
– Deus me livre! – retrucou ela – Desde que meu marido me traiu, há vinte anos, que não confio em mais ninguém.
– Vinte anos, Eloá? Está na hora de achar um namorado – contestei, com uma risada.
– Por acaso, estás insinuando que é falta de…- contrapôs a vizinha, indignada, já com as mãos na cintura.

Percebendo que minha amiga era um tanto quanto ranzinza, me despedi, liguei para o encanador e ficamos aguardando-a voltar de sua viagem.
Duas semanas depois, volto a tocar o interruptor do apartamento da vizinha.

– Bom dia, Eloá. Como está o nosso banheiro? Continua pingando?
– Continua, Seu Jojó. É emocionante sentir um pingo na minha cabeça, toda a vez que preciso sentar no vaso sanitário. – comenta ela, com caras de poucos amigos.
– Então, estou subindo. O encanador vem amanhã pela manhã, Eloá. Tomarei um banho agora e fecharei o registro, para que não te incomodes por enquanto.

– Ótimo! Mas não esqueça de lavar bem, hein? – rebateu a vizinha, com um meio sorriso e olhando para a minha cintura.

Arregalei os olhos com tanta intimidade, virei-me sobre os calcanhares e subi rapidinho para o meu apartamento.
Alguns dias depois, o encanador concertou o vazamento e horas depois, desci para contar-lhe a boa nova
– Bom dia, Eloá. O encanador fez o serviço no meu banheiro e me orientou para deixar secando por 48 horas.
– Se quiseres, podes tomar um banho aqui, Seu Jojó.
– Agradeço muito, mas tomarei meus banhos na casa de minha namorada – respondi rapidamente.
– Eloá, por acaso podes me passar o número do teu telefone? Assim posso te ligar para saber se o trabalho do encanador ficou bem feito, e não continua vazando no teu banheiro.
– Sem problemas, seu Jojó. Espere só um instante, que vou pegar o número no meu caderno.
– Não saber o número do teu telefone residencial, Eloá?
– Para que? Eu não ligo para mim.

E assim, eu e Eloá vamos vivendo. Cada um em seu apartamento. E eu passando o ferrolho. Afinal, nunca se sabe…


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Reciprocidade

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Os zoólogos, observando primatas em cativeiros, notaram a intensa troca de favores entre chimpanzés e com a intenção explícita de aumentar o leque de vantagens competitivas dos negociantes.
Não é diferente na sociedade dos primatas bípedes pelados, dos homo sapiens. Aproximamo-nos ou nos afastamos das pessoas na medida em que a relação que construímos com cada uma delas nos traga alguma vantagem ou não.

E não estamos apenas falando de interesse financeiro. Este é apenas uns dos muitos interesses que consideramos importantes. Mas existem muitos outros, tais como bom humor, capacidade de ouvir as pessoas, generosidade, solidariedade, lealdade, cultura, boa rede de relacionamentos etc.

Todo o tempo, nosso cérebro ancestral, uma parte muito primitiva da nossa massa encefálica e que não mudou nos últimos 10 mil anos, permanentemente esquadrinha o meio ambiente a procura de vantagens que garantam a sobrevivência individual, de sua prole ou grupo.
Este processo de busca de prerrogativas competitivas funciona para muito além da consciência, é uma ferramenta evolutiva característica dos mamíferos e faz parte do kit de preservação das espécies. Portanto, está presente na sociedade dos leões, das hienas, dos gorilas e dos humanos também.

Mas o indivíduo que busca vantagens, como em qualquer negociação, deve oferecer sempre algo em troca. Pessoas que nada tem a acenar, apresentando um comportamento vampirizador, rapidamente são identificadas e excluídas. Alguns sinais externos deste perfil comportamental são a autopiedade, mau humor, introversão, ciúmes, hostilidade gratuita, usura e incapacidade de se colocar no lugar do outro.

Cada um de nós, na nossa humilde opinião, deve tornar-se um epicentro de muitos valores de intercâmbio, compartilhados e disseminados, que se conduzidos com a ética tornará a sociedade humana cada vez mais forte, generosa, rica em valores, influência e poder gregário.


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Mude sempre

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Mude tudo sempre.
Mude a cor do seu cabelo. Mude o corte, também.
Mude o lugar dos móveis da casa. Mude de casa também.
Mude o trajeto que você faz para ir ao colégio. O do trabalho também.
Mude o sabor do sanduíche predileto. E do sorvete também.
Coma menos carne e mais manga. Menos refrigerante e mais água mineral.
Com gás.
Mude o estilo da roupa. Use mais branco. E mais vermelho também.
Mude.
Mude sempre.
Mude seus sentimentos em relação aos amigos. E aos inimigos também.
Mude seus cuidados com a pessoa amada. E por quem lhe ama também.
Mude sua generosidade pelos que pedem. E mais tolerância com quem se doa a você.
Mude sua visão do trabalho e com quem você reparte 1/3 de toda a sua vida.
Mude sua visão da morte, da eternidade e do medo de morrer.
Não culpe nunca ninguém pelo lhe acontece. Nem Deus, nem o diabo nem a sorte.
Mude sua visão da responsabilidade. Você é o único responsável.
Cuide mais dos amigos, do seu pai e da sua mãe também.
Tenha um cachorro ou um gato. Com o nome bem pequeno.
Jogue fora o guarda-chuva. E a ansiedade também.
Às vezes fique só. Gente, o tempo todo, cansa. E principalmente

Mude os cuidados com o seu corpo.
Ele é o seu primeiro e único verdadeiro patrimônio.
Sem ele você não muda. Nada.
É no corpo onde habitam todos os verdadeiros desafios.
Ele é todo o seu território no qual são feitas as mudanças.
Então dê uma chance verdadeira a ele.
Mude-o todos os dias.
Respire mais, flexibilize-o mais, distenda-o e finalmente relaxe-o.
Depois medite.
E tudo mudará para sempre.


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